Como funcionam os testes psicológicos?

Muitas vezes quando ouvimos falar sobre testes psicológicos (deixei o link de um livro que recomendo) , é comum vir-nos à ideia que são questionários e que estes questionários são meras afirmações formuladas de qualquer maneira e sem rigor científico. Mas, os testes psicológicos são muito mais do que questionários. Na realidade, aquilo que vulgarmente chamamos de questionário, em psicologia, designa-se por escala. O objetivo deste artigo será incidirmos sobre os conceitos basilares de como funcionam os testes psicológicos e desmistificar algumas ideias erróneas que possam existir.

1. Diferentes tipos de testes psicológicos

As escalas visam identificar os padrões de resposta de um sujeito, face a um determinado constructo. A isto chamamos testes de resposta típica.

Para além das escalas, existem ainda testes psicológicos que se baseiam na realização de tarefas e/ou escolha da resposta correta entre várias erradas. A isto chamamos testes de máximo rendimento ou performance.

 

2. Construção de um teste psicológico

Na construção de um teste psicológico, existem certos critérios que devem ser satisfeitos para termos um teste que meça o que é pretendido de forma o mais precisa possível (sobre estes critérios falaremos noutro artigo, por ser matéria essencialmente estatística). Por agora e no âmbito deste artigo, quero apenas salientar que um teste psicológico deve ser sensível, válido e fiável e vou explicar-vos o que é cada uma destas coisas.

2.1. Sensibilidade

Quando falamos na sensibilidade de um teste psicológico, estamos a falar da capacidade que este teste tem de discriminar diferentes desempenhos /padrões de resposta, de diferentes sujeitos relativamente ao mesmo atributo que está a ser medido. Imaginem, por exemplo, que pretendo medir o grau de depressão no grupo de pessoas que lêem este blog. Passo uma escala que mede este constructo (i.e., o grau de depressão) a todos os leitores. Para esta escala ser sensível é preciso que pessoas que têm graus de depressão diferentes tenham resultados diferentes, ou seja, que estes resultados sejam sensíveis à variabilidade intrapessoal.

2.2. Validade

Quanto à validade, existem diversos tipos de validade, imaginem vocês que existem cerca de 30 tipos de validade (pelo menos do meu conhecimento). No fundo, a validade pretende responder à seguinte questão: quão exato é o teste psicológico a medir o atributo pretendido?

Existem vários tipos de validade, aqui vamos apenas falar das mais relevantes, são elas a validade de construto, convergente, discriminante e relativa ao critério (esta última subdivide-se em concorrente e preditiva).

Validade de Construto

A principal é a validade de construto. Esta validade diz respeito ao grau de evidência científica que nos permite afirmar se o teste mede o atributo ou qualidade que é suposto medir e que até o teste ser construído, esse atributo ou qualidade, não estava operacionalmente definido. Vou tentar trocar isto por miúdos recorrendo a um exemplo da medicina. Imaginem que queremos estudar os pulmões (atributo), podemos fazê-lo atrás de um Raio-X (teste operacionalmente definido). Ou seja, para estudarmos um dado atributo ou qualidade temos de ter uma forma de o fazer. Quando queremos estudar um atributo ou qualidade psicológica, como por exemplo a depressão, temos de ter um instrumento que nos permita estudá-la, e é aqui que se encontra a validade de constructo.

Validade convergente

No caso da validade convergente procuramos perceber se certas variáveis que se espera que estejam associadas, estão efetivamente associadas. Voltando ao exemplo da escala da depressão, é teoricamente esperado que a depressão e a ideação suicida mostrem um certo grau de associação entre si. Assim, para avaliar a validade convergente de uma escala da depressão poderia verificar se os scores nessa escala estão associados aos scores numa escala de ideação suicida.

validade dos testes psicológicos

Validade discriminante

A validade discriminante (que muitas vezes é confundida ou mal nomeada de divergente) refere-se à correlação idealmente nula que certas variáveis têm de apresentar, correlação esta que não é esperada teoricamente (por exemplo, a depressão e os interesses académicos).

Validade relativa ao critério

A validade relativa ao critério diz respeito ao estabelecimento de uma relação entre o que o teste psicológico mede e um critério, dividindo-se em duas formas: a) concorrente e b) preditiva. Para melhor esclarecer ambos os conceitos, imaginem, por exemplo, o seguinte: queremos saber se uma pessoa com um certo grau de depressão tem um certo grau de probabilidade para se suicidar (critério). Se aplicarmos uma escala de depressão e de seguida perguntarmos o número de vezes que se tentou suicidar, estamos a estudar a validade relativa ao critério concorrente. Se aplicarmos a escala de depressão e esperarmos 6 meses e após este tempo perguntarmos aos mesmos sujeitos o número de vezes que se tentaram suicidar, falamos em validade relativa ao critério preditiva. De um ponto de vista prático e com base nos resultados podemos estimar que uma pessoa com um determinado resultado no teste de ideação suicida pode ter uma probabilidade de fazer X número de tentativas de suicídio nos 6 meses seguintes.

Ou seja, o que difere num caso e noutro é sobretudo o momento temporal da recolha dos dados. No primeiro caso quer os resultados do teste quer do critério são ambos recolhidos no mesmo momento, no segundo, os resultados do teste são recolhidos num momento e o critério num momento posterior. Imaginem que utilizamos um teste psicológico para medir o grau de depressão, aplicamos este teste a um grupo de pessoas e 6 meses mais tarde a estas mesmas pessoas perguntamos o número de tentativas de suicídio.

2.3. Fiabilidade

A fiabilidade é o grau de precisão do teste psicológico, durante o processo de medição. A fiabilidade, essencialmente, subdivide-se em: consistência interna e estabilidade temporal.

Consistência interna

No primeiro caso, a consistência interna diz respeito ao quão consistentes são as respostas aos itens (as afirmações que habitualmente vemos num teste psicológico), dadas por quem lhes responde, relativamente a um constructo teórico. No fundo, se vários itens pertencem ao mesmo constructo teórico, as respostas de uma mesma pessoa devem variar pouco de item para item. Ou seja, imaginem que eu estou a responder a um teste que mede o grau de depressão e que, de facto, eu estou deprimido, se eu disser que estou triste numa pergunta não deveria dizer que estou alegre noutra (isto do ponto de vista teórico). Para além disso, também será de esperar que indique que não tenho tanto interesse em atividades que antes me davam prazer, que a minha vida já não tem tanto sentido como antes, etc.. Ou seja, todas estas afirmações pertencem ao mesmo constructo teórico (depressão) e por isso as respostas que damos aos vários itens devem estar relacionadas umas com as outras. Isto é, deve haver consistência nas respostas aos vários itens de uma escala.

Estabilidade temporal

No caso da estabilidade temporal (ou também designada fiabilidade teste-reteste), refere-se à variabilidade que os resultados apresentam quando o teste é feito duas vezes, em momentos diferentes (preferencialmente, espaçados). Ou seja, imaginem que estamos a usar um teste psicológico que avalia a personalidade, apesar das pessoas poderem mudar (obviamente), não é expectável que mudem completamente. Assim, esperamos encontrar alguma variabilidade se fizermos um teste de personalidade e voltarmos a repeti-lo passados 6 meses. Ou seja, admitimos algumas mudanças, mas não uma mudança integral. É isto que avaliamos quando falamos em estabilidade temporal, ou seja, os resultados mantêm-se relativamente estáveis, em momentos de avaliação diferentes.

escala visual de um teste psicológico

Em suma,

para responder à questão de como funcionam os testes psicológicos, devemos ter em mente que estes só funcionam se forem sensíveis, válidos e fiáveis. Só com testes que tenham estas características podemos avaliar certos domínios do ser humano de forma precisa.

Quando estes aspetos do funcionamento dos testes psicológicos estão mantidos, dizemos que o teste apresenta boas qualidades psicométricas. Tens alguma dúvida sobre como funcionam os testes psicológicos? Deixa as tuas dúvidas nos comentários para te poder ajudar.

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