projeto tese

Comecei por escrever um post mais geral sobre o processo da tese, mas assim que comecei a escrever sobre o projeto de tese percebi que havia tanto para dizer que valia a pena fazer um post apenas sobre isso. Estamos em Maio e é a altura do ano em que alunos de mestrado e candidatos ao doutoramento se começam a debater com as questões de encontrar um tema, um orientador e escrever o projeto de tese.

O passo mais complicado e mais importante é mesmo encontrar o orientador. Nalgumas faculdades esta tarefa é mais facilitada, noutras dependente muito da rede de contactos que os alunos têm e os investigadores a que conseguem chegar. Enquanto estive no ISPA nunca foi um problema porque a relação orientadores-alunos está bastante estruturada, mas quando estive na Faculdade de Medicina percebi o pesadelo que pode ser encontrar um orientador e um tema que nos interesse.

Tudo se torna mais complexo ao nível do doutoramento (especialmente se quiserem fazer o doutoramento a full-time e com financiamento). E acho que acaba por dificultar bastante que pessoas que não tenham boas relações com os professores ou que já se tenham afastado da faculdade há algum tempo voltem para fazer o doutoramento. Pior ainda porque normalmente as pessoas já têm que entregar um projeto (e indicar um orientador) na candidatura ao doutoramento, quando ainda nem sequer começaram as aulas e não conhecem ninguém. Mas pronto, esta é a minha visão sobre a questão e não tenho dados de se realmente isto é uma barreira ou não.

De qualquer das formas, neste post vou partilhar algumas dicas para encontrarem o orientador, o tema e escreverem o projeto.

Projeto de tese

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Muitas faculdades têm uma cadeira de métodos de investigação no 1º ano do mestrado e em muitas delas os alunos têm que apresentar o projeto de tese. Não tem necessariamente que ser aquilo que vão mesmo fazer, mas claro que poupam trabalho se o fizerem. Para além disso, se tiverem um ano letivo (9 meses) ou ainda menos para fazer a vossa tese, o semestre anterior é mesmo uma boa altura para começarem a pensar no tema e orientador e começarem a estruturar as ideias.

Encontrar um orientador

Dependendo das faculdades os orientadores têm papéis diferentes. Por exemplo, no ISPA, no último ano do mestrado todos os alunos têm que se inscrever num “seminário de dissertação” e ficam automaticamente com aquele orientador. Se a tua faculdade tem algo do género e não conseguiste encontrar um orientador é bem provável que só consigas começar a pensar em concreto o que fazer quando começarem as aulas.

Existem outras faculdades têm que entrar em contacto com os professores e arranjar um orientador, aí é mesmo boa ideia começarem a pensar no assunto o mais cedo possível e prepararem-se para alguns nãos.

É ótimo terem já uma ideia do que querem fazer, mas preparem-se para o vosso orientador tentar ajustar o vosso projeto aos seus interesses de investigação, especialmente se ele/a estiverem bastante envolvidos no processo. Percebam que os orientadores, que normalmente são Professores e/ou Investigadores têm imenso trabalho e as inúmeras horas que vão dispender no vosso projeto também têm que lhes ser útil.

Para quem não tem nenhuma ideia do que quer fazer, conhecer vários orientadores pode ser mesmo uma ótima ajuda durante este processo. Normalmente, a maior parte dos professores disponíveis para orientar teses de mestrado dão aulas nos mestrados. Por isso, se estão com dificuldades em pensar num tema pode ser boa ideia falarem a seguir a uma aula com os professores das disciplinas que vos interessam mais e saber se estão disponíveis para orientar teses e em que temas andam a trabalhar ultimamente.

Alguns aspetos importantes a ter em conta quando estiverem a escolher o vosso orientador:

  • A disponibilidade do vosso orientador – sobretudo é importante que tenham as expectativas alinhadas. Se vocês gostam de trabalhar mais independentemente e o vosso orientador quer um update todos os dias, isso pode ser complicado. Mais comum é vocês precisarem de bastante apoio para fazer a tese (ou pelo menos de algum) e os orientadores não estarem disponíveis. Nunca estive em nenhuma destas situações, mas convém terem a noção que há professores/investigadores que são mais disponíveis que outros (e aqui ajuda perceberem a disponibilidade
  • Se querem fazer investigação ou só a tese – ou seja, se querem uma relação a curto ou a longo prazo.
  • Qual a experiência que outras pessoas tiveram com aquele orientador – honestamente isto pode ser bastante ou nada informativo. Ainda assim, se puderem perguntem a outras pessoas que tiveram aquele orientador como foi a experiência delas, se gostaram de trabalhar com aquela pessoa, em quanto tempo terminaram o mestrado, etc.

Escolher um tema

Dependendo se tiverem muitas ideias ou se preferirem seguir o que vosso orientador vos indicar, isto pode ser feito de diferentes formas. Um ponto importante de qualquer das formas é que terão que trabalhar na vossa tese durante um longo período de tempo: desde alguns meses na tese de mestrado a 4 anos na tese de doutoramento. Por isso, escolham um tema que realmente gostem ou, no caso de estarem a “despachar” a tese de mestrado que não vos dê uma dor de cabeça.

Mas sugiro que gostem minimamente do tema em qualquer um dos casos. Fazer uma tese não é difícil, mas é extremamente trabalhoso e terem um tema que vos interessa é meio caminho andado para estarem motivados. Não se iludam, é provável que quando entregarem a tese já estejam um bocado enjoados com o tema ou até frustrados, mas isso depois passa (ou não).

Se não sabem muito bem o que fazer, aconselho a irem falar com os professores das vossas disciplinas preferidas (que não são necessariamente os vossos professores preferidos). Lembrem-se que vão trabalhar no tema durante muito tempo sozinhos por isso convem mesmo gostarem do tema.

Escrever um projeto de tese

Podem ter que escrever isto no primeiro ano do mestrado, por exemplo, para uma cadeira de métodos de investigação. Em alguns casos têm que entregar o projeto no início do 2º ano do mestrado. Se estiverem a pensar em candidatarem-se a um doutoramento é muito provável que tenham que escrever um projeto na vossa candidatura (especialmente quando se candidatam a financiamento).

Lembrem-se que o projeto é uma “ideia” do que querem fazer e não necessariamente a forma exacta como vão fazer tudo. Se estiverem a escrever o projeto para uma disciplina ou para se candidatarem uma bolsa pode ser necessário adaptarem algumas coisas para terem um melhor resultado. Não estou a dizer para mentirem, mas por exemplo, os projetos da FCT têm um número super limitado de palavras (penso que têm 1000 para descrever o que vão fazer em 4 anos), por isso há muita informação que fica de fora.

Num projeto de tese normalmente vão ter que (a ordem e conteúdos poderá variar ligeiramente cons:

  • Identificar o problema e A Questão de investigação – é suposto o vosso trabalho responder a UMA questão de investigação (que no caso do doutoramento abrange os vários estudos).
  • Fazer uma (muito) pequena revisão da literatura – lembrem-se que o objetivo aqui não é contarem a história de tudo o que já foi feito numa determinada área, mas sim falar de alguns estudos ou estatísticas que contextualizam o vosso trabalho ou que fundamentam aquilo que vão estudar.
  • Dizer quais é que são os objetivos da tese e identificar as hipóteses que têm.
  • Explicar o método do vosso estudo ou estudos – aqui, especialmente num projeto de tese de mestrado, vale a pena perder algum tempo a pensar nos detalhes do vosso estudo: como e quando vão recolher os dados, que materiais vão usar e como vai funcionar tudo. Isto vai-vos poupar imenso tempo quando iniciarem o trabalho propriamente dito.
  • Identificar a maneira como pretendem analisar os dados – é provável que esta questão se torne cada vez mais importante com as questões da ciência aberta e dos pré-registos. Nesta secção devem explicar o mais detalhadamente possível como pretendem analisar os dados e que resultado esperam. Devem também referir como vão codificar as variáveis (caso se aplique).
  • Por fim, devem apresentar na discussão qual o impacto (teórico e prático) do vosso trabalho e algumas limitações do vosso estudo (sobretudo para projetos de tese a serem entregues nas universidades). Podem colocar possíveis obstáculos que esperam encontrar e como ultrapassá-los. Devem também incluir qual é que esperam que seja o contributo do vosso estudo para a área de investigação e para a prática.

Para a escrita em si, já tinha deixado alguns conselhos para a escrita da tese e muitos deles também se aplicam para o projeto.

Lembrem-se que a ideia não é ficarem uma tese para sempre, por isso tentem ser realistas e fazer um projeto que se adeque ao tempo que têm para o fazer. Da minha experiência, tudo em investigação (e na vida) leva muito mais tempo do que inicialmente esperamos. Se estão a fazer uma tese de mestrado, um ou dois estudos serão suficientes (dependendo da área claro), mas não queiram resolver o quebra-cabeças da vossa área com a vossa tese. Não vai correr bem. Se gostam assim tanto de fazer investigação, façam o mestrado e depois avancem para o doutoramento onde podem continuar a investigar por mais 4 anos. E se ainda quiserem continuar a fazer investigação existem pós-docs e posições de investigação e toda uma carreira de investigação pela frente.

 

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