Recentemente, no meu grupo de investigação começámos a trabalhar o tema da ciência aberta e a decidir que práticas queremos implementar. Apesar de ser um tema que tenho vindo a aprofundar sobretudo nos últimos dois anos, nos últimos tempos tive oportunidade de ficar a conhecer muito mais e de por em prática algumas coisas, por isso torna-se muito mais relevante para mim e para vocês partilhar mais convosco sobre este tema.

Vamos começar pelos básicos, o que é a ciência aberta?

A ciência aberta é um conjunto de práticas que tornam a ciência por um lado mais transparente e por outro lado mais acessível a todos. Tem imensas vertentes e razões por trás, mas duas das mais importantes são:

  • tornar o processo científico mais transparente não só para o público em geral, mas também para os outros cientistas.
  • tornar tudo aquilo que é produzido em investigação acessível para todos. Isto tendo por trás a ideia de que a ciência deve ser acessível quer em termos do conteúdo ser percebido por pessoas de vários públicos (aí entram as práticas de comunicação em ciência), quer no sentido de eliminar os custos de acesso aos artigos científicos e ao conhecimento científico que é produzido (e aí entram políticas como publicar em revistas científicas com acesso aberto).

Neste site podes encontrar o Plano Nacional de Ciência Aberta.

Como surgiu o movimento da ciência aberta?

Apesar de nos focarmos muito na crise da replicação para explicar o surgimento deste movimento, a verdade é que quando olhamos para o movimento como um todo (e não só para os pré-registos, disponibilização dos dados, etc) percebemos que este movimento científico acaba por ter origem em vários aspectos que não estavam bem na ciência em geral.

Como já disse, há um foco muito grande na “crise da replicação”. Isto basicamente aconteceu, quando houve uma série de artigos em que se pôs em causa a qualidade do método científico utilizado (como este, em que psicólogos encontraram evidência para a pré-cognição, i.e., a capacidade de “prever” o que vai acontecer) e que quando se tentou replicar os resultados (como no caso do famosísssimo artigo da Power pose e a dificuldade em replicá-lo) não se conseguiu encontrar o efeito. Este é um tema que daria um artigo em si (e talvez ele venha a acontecer, mas até lá recomendo-vos este da Psychology Today, sobre a crise da replicação em psicologia que acho que é uma boa introdução e este do The Guardian que se foca um pouco mais no estudo da pré-cognição).

Por outro lado, todo o sistema de publicação de artigos académicos estava um pouco viciado. Basicamente, publicar artigos é uma das coisas mais importantes para quem faz investigação. Em muitos países e universidades, os investigadores têm objetivos do número de artigos que têm que publicar e isso é um fator determinante para serem contratados e/ou promovidos. Novamente isto dava pano para mangas, mas por várias razões esta métrica é bastante injusta e força as pessoas (sobretudo as que estão em início de carreira) a arranjarem estratégias para publicarem o mais possível.

ciencia aberta

Fora isso, os autores normalmente têm que pagar para publicar os seus artigos (sim, não só não recebem nenhum tipo de direitos de autor, como ainda têm que pagar para poder divulgar o seu trabalho). Como se isso não fosse suficiente, quem quer aceder aos artigos também tem que pagar. Normalmente as universidades têm acesso a um grande número de artigos, mas era comum não conseguiros aceder a muitos dos artigos que precisávamos. Por isso surgiram estratégias como grupos do facebook em que perguntávamos uns aos outros se tinham acesso a um artigo. (Não tão) recentemente surgiu o scihub, um site “pirata” onde as pessoas conseguem ter acesso a quase todos os artigos científicos, que tem sofrido imensos processos e é frequentemente bloqueado, mas que se vai mantendo.

A verdade é que, sendo que a maior parte dos projectos de investigação são financiadas por entidades estatais, fundos europeus e basicamente dinheiro dos contribuintes de todo o mundo, torna-se muito injusto que o fruto desse trabalho não esteja disponível. Para além disso, cria imensas desigualdades. Estive em Cambridge e era o paraíso dos artigos (para uma nerd pelo menos), em 6 semanas só encontrei um artigo a que não tinham acesso. Já em Portugal, como já disse, é frequente não termos acesso. Agora imaginem no Cazaquistão, de onde é a fundadora do sci-hub, Alexandra Elbakyan.

Quais as principais práticas da ciência aberta?

Para fazer face a tantos problemas, surgiram então uma panóplia de soluções. Cada uma delas vai de encontro a um ou vários problemas na ciência (que não consigo resumir num só artigo, mas prometo escrever mais sobre este tema). Algumas fazem face aos problemas na própria forma de fazer ciência outras à disponibilização do que é publicado. Neste artigo vou apenas falar sobre algumas destas práticas, explicar o que são e dar-vos alguns recursos para saberem mais. Se gostavas que abordasse algum deles mais a fundo, por favor deixa nos comentários.

Para quem faz ciência, torna-se impossível adotar todas e especialmente todas ao mesmo tempo, se começarem por implementar algumas (aquelas que vos façam mais sentido no vosso caso) já é bom. Por exemplo, se estás a escrever a tese podes começar por pensar e discutir com os teus orientadores se queres partilhar os dados ou os materiais que usaste. Se ainda nem começaste, podes pensar em pré-registar a tua tese, e por aí fora.

Para quem consome ciência e sobretudo para quem me segue no instagram e vê o que partilho sobre a divulgação de estudos nos media, percebam que muitos vezes nem chego à questão de como o estudo foi feito, mas haveria muito de que falar. Isto significa que não devemos levar a sérios os resultados dos estudos científicos? Claro que não, mas é importante perceber que a ciência é muito mais complexa do que “artigos dizem” e que nada se pode provar num estudo. Para perceberem um pouco melhor esta questão, aconselho que leiam o que escrevi sobre o método científico.

Pré-registos

Para perceberes a importância dos pré-registos, tens mesmo que percber um pouco mais como funciona o método científico e a estatística. Basicamente, os testes estatísticos que usamos só são válidos se tivermos hipóteses a priori. Caso decidamos começar a testar tudo e mais alguma coisa nos nossos dados (tentar correlacionar tudo, comparar médias entre grupos que nunca pensámos analisar, etc) eventualmente alguma coisa vai dar resultados significativos. Mas a probabilidade de esses resultados significativos significarem que algo é verdade (que acontece mesmo) é muito baixa.

Para tentar resolver este problema e porque muitas vezes avançamos para a análise de dados com uma ideia (demasiado) vaga do que queremos fazer, existem os pré-registos. Um pré-registo, é um registo com um selo temporal, da forma como vamos fazer um estudo e analisar os resultados. Podem fazê-los em sites como a osf.io ou o aspredicted.org.

 

Pessoalmente, estou a tornar-me fã da OSF (este é o meu perfil por lá), porque permite não só fazer pré-registos, mas também partilhar os materiais, os dados e até facilita a organização do trabalho para toda a equipa de investigação. Lá podemos definir se queremos que o projeto seja público ou privado e quando queremos que se torne público (por exemplo, apenas depois do estudo ser publicado). O mesmo se aplica aos pré-registos para os quais podem definir um período de embargo, durante o qual o pré-registo fica privado. Esta plataforma acaba por ser também uma boa forma de encontrar outros investigadores com projetos relacionados com o nosso.

Pre prints

Esta é outra opção para publicar os artigos. Podem submetê-los/encontrá-los em sites como o PsyArXiv, o bioRxiv ou o arxiv. No PsyArXiv sei que os artigos ficam idexados no google scholar (o que significa que podem ser encontrados e citados mais facilmente) e ficam com um DOI associado (o doi é um identificador de objetos, muito importante para os artigos serem considerados “a sério”).

Por um lado, permite que a partilha das descobertas científicas seja mais rápida e por outro lado permite partilhar estudos que ou por não serem muito interessantes ou porque não conseguiram bons resultados de outra forma não seriam partilhados.

É importante dizer que a publicação de um pre-print não substitui a publicação de um artigo. Algumas pessoas têm medo que ao publicar o pre-print seja mais difícil que uma revista aceite depois publicar o vosso artigo (uma vez que ele já está disponível de forma gratuita). Mas existem muitas revistas científicas que aceitam que sejam disponibilizados (uma vez que é uma espécie de primeiro draft e ainda não é a versão final). Podem consultar as políticas de acesso da maior parte das revistas científicas no Sherpa Romeo.

Para quem consultar estas bases de dados tenham em conta que os pre prints não passaram pelo processo de revisão por pares, uma espécie de controlo de qualidade dos artigos científicos, por isso tenham em conta essa limitação.

Dados abertos e Materiais abertos

Consiste em disponibilizar os dados. Isto aumenta a transparência porque por um lado qualquer pessoa pode ter acesso aos dados (o que em teoria evita que as pessoas modifiquem os dados) e por outro lado outros cientistas podem reanalisar os dados e ver se obtêm os mesmos resultados – isto por causa de algumas práticas de manipular dados ou de realizar excessivas análises com os dados, por vezes tornar as próprias análises difíceis de replicar.

Disponibilizar os materiais dos estudos e facilitar a vida a outras pessoas que queiram replicar o estudo ou utilizar aqueles materiais para fazer outras coisas.

Estas duas práticas têm por princípios aumentar a transparência do processo e também facilitar a replicação dos estudos (i.e., outros investigadores realizarem a mesma experiência, nas mesmas condições para verem se obtêm os mesmos resultados). Aqui pode ajudar muito também ter e disponibilizar o script do R/syntax do SPSS ou algo equivalente do JASP ou do STATA, ou seja, uma linha de comandos de programação que mostra como chegaram aos resultados e que torna super fácil para vocês e para os outros chegar à mesma análise.

Para concluir

Este artigo ficou muito longo eu sei e ainda haveria muito mais para falar. Se ficaram com dúvidas sobre ciência aberta ou há algum tema que gostassem que abordasse em mais profundidade deixem nos comentários.

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