Neste posts relembro um trabalho que fiz sobre os processos de influência social na campanha de Trump. Quando comecei a escrever o trabalho, ninguém acreditava que ele chegaria sequer a ser nomeado pelo partido Republicano. O meu trabalho terminou no momento exacto em que se soube que Trump era o candidato presumível do Partido Republicano. Sete meses depois (quando escrevi inicialmente este post) já se sabia que Trump seria o próximo presidente dos Estados Unidos da América.

 

Influência Social na campanha de Donald Trump

Para a faculdade tinha que fazer um trabalho sobre Influência Social e decidi logo que queria trabalhar os processos de influência social em campanhas políticas. Existem duas abordagens aparentemente semelhantes na análise das campanhas políticas: a persuasão e a influência social. Enquanto que a primeira envolve mudança de atitudes, a segunda envolve mudanças de comportamentos na presença dos outros; enquanto que a primeira analisa a mensagem, os emissores e os receptores e entra mais frequentemente no campo da cognição (i.e. o nosso  pensamento), a segunda estuda comportamentos visíveis de compliance com as normas. Apesar de a maior parte das estratégias utilizadas nas campanhas políticas serem as estratégias de persuasão, também são mobilizadas estratégias de influência social.

 Achei interessante pegar na campanha do Donald Trump, um personagem que se estava a candidatar à presidência (e que tinha uma certa distância do nosso contexto). Quando fiz este trabalho, o meu interesse era perceber os processos psicológicos que estavam por trás do fenómeno “Trump”. 

No meu trabalho abordei algumas estratégias de influência social que foram utilizadas na campanha de Trump (se quiserem ler mais sobre influência social recomendo-vos o livro Influence do Cialdini, que podem encontrar em inglês ou português).

Vou deixar-vos aqui um resumo das estratégias de persuasão, mas se quiserem perceber mais podem consultar o meu trabalho que está em formato de revista e é de fácil leitura.

Princípio da reciprocidade

A necessidade de as pessoas tentarem pagar de volta aquilo que outra pessoa lhes dá. Exemplo na campanha de Trump: Com o slogan Make America Great Again, Trump estava a dar de volta aos americanos uma América Grande, estava a dar-lhes de volta o sonho americano. Este slogan foi particularmente eficaz com pessoas de classe média que viram o seu poder de compra diminuir durante os anos de crise económica.

Validação social

É a utilização das acções dos outros para compreender o valor de uma ação. Assim, a ação correcta é aquela que os outros estão a fazer. Um exemplo da utilização desta estratégia foi quando, num comício, Trump pediu as pessoas que levantassem a mão direita e que jurassem, em conjunto, ir votar em Trump nas
primárias. Quando as pessoas fizeram o juramento,fizeram-no num grupo, que decidiu alinhar naquilo que lhes era pedido, ainda que alguns provavelmente não se identificassem muito com o momento criado por Trump. Ao verem os outros a participar acabaram por se sentir impelidos a fazer o mesmo. Gostando ou não, concordando ou não, a grande maioria dos que ali estavam participaram no momento. E pior, afirmaram perante os outros, perante Trump e perante si próprios que iriam votar em Trump, fizesse chuva ou sol. E isso leva-nos ao desejo de consistência.

Desejo de consistência

É um motivador central do nosso comportamento. Os seres humanos detestam ser inconsistentes (embora na realidade todos o sejamos). O que acontece é que a partir do momento que me alguém se compromete com algo, fará de tudo para ser consistente e manter a sua posição. No exemplo anterior, a partir do momento que disseram e assumiram publicamente que iriam votar em Trump naquele congresso, aquelas pessoas passaram a ter uma
necessidade de consistência com aquilo que tinham dito. Seria muito mais difícil, depois de terem assumido que iriam votar em Trump, serem inconsistentes e votarem noutro candidato. Nem é tanto o facto de o terem dito
perante outras pessoas e de não desejarem ser inconsistentes perante os outros, é sobretudo uma necessidade de nos percebermos a nós próprios como consistentes e, de portanto, não agirmos de forma contrária à imagem que temos de nós próprios. Quem é que gosta de ser um “troca-tintas”?

Likability 

É a tendência que temos para preferir pessoas que são mais semelhantes connosco, mais familiares, mais
bonitas e, em geral, mais agradáveis.

Não, não estou a dizer que o Trump ganhou as eleições porque é lindo de morrer (ninguém iria acreditar, não é). A verdade é que nas eleições primárias Trump era um nome muito mais familiar, disseminado ao longo de anos e anos,
em todos os produtos possíveis e imaginários. Trump soube tornar o seu nome bastante familiar aos americanos: desde o mercado imobiliário, sites,reality shows, marcas de roupa, de vinho, etc, é difícil existirem americanos que nunca ouviram o nome Trump. E o mais provável é que o tenham ouvido muitas vezes e que este lhes seja bastante familiar. Pelo contrário TedCruz ou John Karsich eram nomes muito menos conhecidos.

Já durante a campanha eleitoral, Trump fez questão de estarfrequentemente presente nos media, chegando a ligar para os programas de televisão para fazer ouvir a sua opinião e o seu nome.  Desta forma, o seu nome torna-se muito mais familiar e na hora de votar, as pessoas tendem a votar no nome que lhes é mais familiar.

Grande parte destas estratégias de influência social na campanha de Trump, mantiveram-se na segunda parte da corrida, por isso apesar de o ter feito durante as eleições primárias penso que muita coisa continuou a acontecer no duelo democratas-republicanos.

Um facto muito interessante que gostaria de deixar sobre a vitória de Trump é sobre os condados que votaram em Trump. Inicialmente pensou-se que pela mensagem muito focada na economia e pelo período de crise anterior, que teriam sido as pessoas com rendimentos mais baixos que teriam optado por Trump. Num artigo e análise muito interessantes do FiveThirtyEight podem perceber que foi na realidade o nível de educação que teve uma associação maior com o voto em Trump. Nos condados onde as pessoas tinham mais educação (condados com uma maior percentagem de pessoas que tinham um curso superior, incluido naqueles que tinham rendimentos mais baixos) Hillary ganhou. Nos condados com menos educação (incluindo aqueles em que há uma maioria de não-brancos) Trump ganhou.

 A influência social é uma das áreas da psicologia social, se quiseres ficar a saber mais sobre a psicologia social e outras áreas da psicologia para além da clínica clica aqui.

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